Foram quatro anos de uma coisa diferente da que é agora e da que vai começar agora. E por isso, termina aqui.
O percurso deste blogue foi em tudo semelhante ao meu e por isso o mantenho aqui, para consulta futura, como marcas de um caminho trilhado. Começou como um sítio público para o alojamento público das minhas historietas e ideias que surgiam e que, inevitavelmente, tinham de ser escritas e processadas. Não foi uma fase criativa - foi uma fase de crescimento e maturação mais intensa do que os dias de hoje. O início foi assim: repleto de novas ideias e novas interrogações, novos olhares pela janela e novas descobertas fora de portas, o cérebro a mil à hora e a partilha também.
Já não escrevo tantas historietas nem parágrafos sem objectivo, como o fazia dantes. Para dizer a verdade, já pouco escrevo, exceptuando os trabalhos, os apontamentos, as aulas, e a lista de compras. Se faço uma nova descoberta, já não sinto necessidade de a escrever. Fica dentro e é cá dentro processada, sem necessidade de lhe dar forma em contornos de letras. Já muito raramente me incomodo a falar para alguém - ou mesmo com os meus botões - sobre o gato que anda à chuva no pátio. Observo, contemplo e o cérebro fica por aí, calmo e seguro como um observador não participante, como um narrador de histórias antigas.
Também as pessoas que começaram por me acompanhar há quatro anos não são as mesmas que me acompanham agora, com excepção de algumas que, como pilares invisíveis da minha grande abóbada de uma batalha que nunca foi mosteiro, se mantém firmes - your hand in mine, we walk the miles. Outras apareceram nos entretantos, e eu já não lhes tinha tantas historietas para contar, como se estas tivessem pertencido a um outro mundo, ao mundo de uma infância passada de frente para o Monte Senhora do Castelo e uma adolescência a ver a Serra da Estrela com os cumes nevados no Inverno . E também como se tivessem pertencido, por último, ao mundo da transição, das viagens de comboio que tanto gostam de apelidar como sendo da província para a capital, mas que mais não são que uma viagem interior à roda das múltiplas origens que o tempo se nos encarrega de dar.
Já sem as minhas historietas, a minha história é simples, nestes próximos tempos. Estou a duas cadeiras e uma tese de terminar a licenciatura e em Setembro desaparecerei nas estatísticas da população activa.
Desinteressante, claro, mas num mundo que não olha os gatos vadios à chuva, outra coisa não seria de esperar. Não é destino, porque isso é uma ideia romântica e as ideias românticas desapareram no mundo das sombras de uma caverna sem alegorias, é um simples facto.
Todavia, continuarei a escrever para a web, porque da escrita das coisas sérias não me escapo - assim o escolhi. É esta a transição da concretização da contemplação ao desejo de acção, e faço do fim deste blogue o meu rito de passagem.
O relato e balanço do fim desta última etapa universitária - erasmus - será registado aqui. Está para breve, dentro de duas semanas regressarei a Portugal.
Continuarei a estar disponível por e-mail, que se encontra também no perfil de utilizador/a do blogspot.
Terminadas que estão estas considerações mais ou menos "burocráticas", agradeço também às pessoas que, apesar da minha falta de tempo e dedicação, continuam a passar por aqui todos os dias, como um sinal de que we're in this together.
Este texto foi escrito hoje não porque hoje tenha sido o fim de qualquer coisa, ou o início de qualquer outra coisa, nem porque seja uma data a assinalar ou porque qualquer mudança vá ocorrer de hoje para amanhã. Infelizmente, é muito menos romântico do que isso: tenho tempo e está a chover. E também porque passei a tarde a observar os gatos no pátio, que se escondiam da chuva. De chávena de café na mão, na varanda, resguardada do vento (hoje ligeiro) que se fazia sentir.
Old habits die hard...
