Junho 23, 2009

Walk a mile

Este blogue termina aqui. Surgiu há quase quatro anos, noutro lugar, e mudou-se para aqui poucos meses depois.

Foram quatro anos de uma coisa diferente da que é agora e da que vai começar agora. E por isso, termina aqui.

O percurso deste blogue foi em tudo semelhante ao meu e por isso o mantenho aqui, para consulta futura, como marcas de um caminho trilhado. Começou como um sítio público para o alojamento público das minhas historietas e ideias que surgiam e que, inevitavelmente, tinham de ser escritas e processadas. Não foi uma fase criativa - foi uma fase de crescimento e maturação mais intensa do que os dias de hoje. O início foi assim: repleto de novas ideias e novas interrogações, novos olhares pela janela e novas descobertas fora de portas, o cérebro a mil à hora e a partilha também.

Já não escrevo tantas historietas nem parágrafos sem objectivo, como o fazia dantes. Para dizer a verdade, já pouco escrevo, exceptuando os trabalhos, os apontamentos, as aulas, e a lista de compras. Se faço uma nova descoberta, já não sinto necessidade de a escrever. Fica dentro e é cá dentro processada, sem necessidade de lhe dar forma em contornos de letras. Já muito raramente me incomodo a falar para alguém - ou mesmo com os meus botões - sobre o gato que anda à chuva no pátio. Observo, contemplo e o cérebro fica por aí, calmo e seguro como um observador não participante, como um narrador de histórias antigas.

Também as pessoas que começaram por me acompanhar há quatro anos não são as mesmas que me acompanham agora, com excepção de algumas que, como pilares invisíveis da minha grande abóbada de uma batalha que nunca foi mosteiro, se mantém firmes - your hand in mine, we walk the miles. Outras apareceram nos entretantos, e eu já não lhes tinha tantas historietas para contar, como se estas tivessem pertencido a um outro mundo, ao mundo de uma infância passada de frente para o Monte Senhora do Castelo e uma adolescência a ver a Serra da Estrela com os cumes nevados no Inverno . E também como se tivessem pertencido, por último, ao mundo da transição, das viagens de comboio que tanto gostam de apelidar como sendo da província para a capital, mas que mais não são que uma viagem interior à roda das múltiplas origens que o tempo se nos encarrega de dar.

Já sem as minhas historietas, a minha história é simples, nestes próximos tempos. Estou a duas cadeiras e uma tese de terminar a licenciatura e em Setembro desaparecerei nas estatísticas da população activa.

Desinteressante, claro, mas num mundo que não olha os gatos vadios à chuva, outra coisa não seria de esperar. Não é destino, porque isso é uma ideia romântica e as ideias românticas desapareram no mundo das sombras de uma caverna sem alegorias, é um simples facto.

Todavia, continuarei a escrever para a web, porque da escrita das coisas sérias não me escapo - assim o escolhi. É esta a transição da concretização da contemplação ao desejo de acção, e faço do fim deste blogue o meu rito de passagem.

O relato e balanço do fim desta última etapa universitária - erasmus - será registado aqui. Está para breve, dentro de duas semanas regressarei a Portugal.

Continuarei a estar disponível por e-mail, que se encontra também no perfil de utilizador/a do blogspot.

Terminadas que estão estas considerações mais ou menos "burocráticas", agradeço também às pessoas que, apesar da minha falta de tempo e dedicação, continuam a passar por aqui todos os dias, como um sinal de que we're in this together.

Este texto foi escrito hoje não porque hoje tenha sido o fim de qualquer coisa, ou o início de qualquer outra coisa, nem porque seja uma data a assinalar ou porque qualquer mudança vá ocorrer de hoje para amanhã. Infelizmente, é muito menos romântico do que isso: tenho tempo e está a chover. E também porque passei a tarde a observar os gatos no pátio, que se escondiam da chuva. De chávena de café na mão, na varanda, resguardada do vento (hoje ligeiro) que se fazia sentir.

Old habits die hard...

Junho 06, 2009

Espero que este texto não denote um certo enfado que, por sinal, está bem presente neste momento devido ao Diritto tributario. Em todo o caso, eis para que serve escrever, mesmo que sejam só estes pensamentos sem grande ordem ou correcção, um texto que é como fazer dó-ré-mi-fá-sol num órgão e dizer que sabemos tocar e fazer música.

Do dó-ré-mi-fá-sol ao dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-ups!-dó (porque fica sempre mais bonito terminar na mesma nota de onde se começou) é um instante. Há muitos anos atrás foi assim que tudo começou com o órgão e, quando há alguns anos atrás terminou, também foi, de certeza, num dó.

Este texto tem cinco notas, não porque seja curto, mas porque não tem utilidade, é um princípio de aprendizagem. Começamos sempre por coisas incompletas e sem sentido, para podermos preparar a mente e as mãos para as grandes coisas, as coisas com sentido.

Têm sido semanas não muito favoráveis ao bem-estar, estas últimas três, de uma infecção passa-se para outra e outra e pronto, já cá faltava a habitual faringite (se não for esta viria a amiga, a amigdalite) e fica tudo em família. E terá impreterivelmente que passar até Terça-feira, para fazer o exame (que aqui são todos orais) de Scienza delle Finanze sem grandes problemas e, já agora, o de Quarta-feira, pois lá por ser Associazioni e Istituzioni, não quer dizer que seja necessária menos harmonia vocal.

Têm sido meses de azáfama, desde o fim de Abril que já parece tão distante, com o começo de dois trabalhos, passando por Maio, o mês de preparação da apresentação dos trabalhos, e agora, este começo de Junho, com um calendário de exames a contra-relógio, para estar tudo a postos para o Grande Regresso a Portugal, no início de Julho.

Hoje é a Bênção de Finalistas do ISCSP. Na bênção geral de Lisboa, estive eu, a Iberia conduziu-me lá por um par de dias, à família e às/aos amigas/os mais próximas/os, aquelas/es que o escasso tempo nunca poderia ser impedimento de as/os ver. Foi bonita, pois claro, foi bonita, e outra palavra tão simples não poderá ser utilizada para um evento que, pese a sua péssima organização, consegue deixar memórias, quando se vêem as cores do ISCSP – vermelho, branco, preto – a pintarem o ar por cima de nós, quando guerreiam os braços vestindo a mesma camisola, representando a Casa que se tornou nossa.


Hoje, porém, cá estou eu em Trieste – e queria estar em Lisboa – e amanhã, que queria estar em Mangualde, para votar, não poderei estar. E falta pouco, falta muito pouco para voltar. E sei que dias haverão que quererei estar não em Lisboa, não em Mangualde, mas em Trieste, com a sua grandiosidade de città di confine, uma cidade que nos acolheu de modo tão especial, neste que é o nosso último ano de faculdade – pois, por muitos ciclos de estudo que venham depois, este é aquele, este é o da faculdade, este é o único.

Entretanto têm acontecido tantas coisas! A Mitzy, de quem tenho tantas saudades, foi mamã no início de Maio, estávamos nós na Sardegna, Cagliari, aproveitando o que as low cost nos podem dar de melhor.


(por mim, 1/05, Poetto - Cagliari)

Agora que estou quase a voltar, os bebés da Mitzy já correm e fazem tropelias, diz a mana que é sempre porta-voz das notícias de Mangualde. Significa que o tempo está a correr, muito depressa. Se este mês e meio já colocou os bebés da Mitzy a correrem e a comerem coisas sólidas, que é que fez connosco? Nem tenho dado pelo tempo, o quotidiano é preenchido pelas refeições, pela higiene, pelas compras para a casa e pelo estudo. E que é que estes oito meses passados fizeram por nós? As paredes da cozinha estão preenchidas com o nosso legado e de quem nos visitou ou apenas faz parte de nós. Os nossos recados caseiros em post-its, as instruções de preparação das malvas e de massa de pizza, as pequenas lembranças escritas que amigas/os e família nos deixaram aquando das visitas, os desenhos que o meu afilhado fez no bloco de apontamentos que deixei em cima da secretária em Maio, em Lisboa, caricaturas de um Professor da Universidade de Trieste, o nosso extreme makeover do Brad Pitt, num poster que antigos inquilinos cá deixaram… É tudo nosso produto porque é tudo o “nós”.

Ai, vai custar deixar Trieste – quase tanto como vai ser bom regressar a Lisboa, e a Mangualde, e à família, e às/aos amigas/os e à Mitzy e sua prole, e ao Cucas, a um afilhado que até já aprendeu a dizer “Silvia” correctamente.

A mente não tem procurado o mundo externo, nem se tem ocupado desse mundo das coisas, quando se entra no ritmo mecanizado de trabalhos e exames, e se quer terminar este texto com o “dó” com que começou. Porque o contra-relógio será recompensado e terá um regresso mais livre, espero, e este é o meu “dó” final. Espero.

(As time goes by…)

(publicado primeiramente em Nove meses de jornada)

Abril 29, 2009

Abril 26, 2009

The day after

No dia seguinte à revolução, @ revolucionário torna-se conservador/a, diz-nos Hannah Arendt.

De Abril, isto, que também pode ser encontrado aqui. Agradece-se ao Público a sua referência no espaço "Blogues em Papel" do Caderno 2 da Edição de hoje.

O silêncio de Abril

(retirado daqui)

Abril trouxe um silêncio diferente, mas nem por isso menos calado, é o silêncio das amarras individuais, de querer abrir a boca e senti-la fechar pela obediência que esta socialização dos cravos nos trouxe, a esta geração pós-74. A anterior, a que grita, grita a mesma coisa há 35 anos, sem saber o que grita e apenas uma vez por ano.

É como diz a Joana (em referência a isto): É agora, que me espreita a hipocrisia, porque quem faz Abril duas-três vezes num ano não o faz 365-366 dias. Não protesta, não grita, não barafusta. Cala-se e tem medo e não é livre e não é nada. Porque precisa sempre de outros para o fazer ou porque nunca deixou de se submeter e parece-me não vai deixar tão cedo.

Comemorar Abril, como manda a tradição, não é só acorrentar a direita, é também prender a esquerda. É querer confinar toda a esquerda a uma revolução feita em 74, aclamá-la como sua responsabilidade, retirando-lhe culpas; aclamá-la como mérito seu, retirando-lhe tutela do que se lhe seguiu. Este golpe militar encarou a Liberdade como um animal de circo, a ser exibida sempre que necessário, mas presa a uma trela. A Liberdade veio de Abril com um dono, que não somos nós, e tudo o que o povo vê é a actuação da Liberdade, em cativeiro.

Quem dita as decisões certas? Aqueles que agarram na trela. Não pode existir confiança em decisões tomadas por quem prende a Liberdade, para quem a estabilidade no relacionamento institucional implica, na verdade, o desejo de um público calmo deste circo gigante, onde a atração principal se tornou a Liberdade na categoria de ilusionismo...

Já alguém se deu conta que sai à rua de cravo na mão a horas certas?



Ontem, aqui, foi a Festa della Liberazione. A Liberdade como um denominador comum Europeu. Hoje, como ontem, trabalha-se, cá por casa.

Abril 25, 2009

Detestava passar o dedo nos móveis e encontrar pó. Por isso, meticulosamente, fazia o pano dançar pelas esquinas e pelos rebordos de toda a madeira daquela sala.

No fim da tarefa, sentava-se no cadeirão de pele, também este impecavelmente limpo, e suspirava, pensando: “dever cumprido”.

Que triste chamar dever cumprido à tarefa de limpar o pó. Tudo o que queria era virar a página do livro centenário sem esta se desfazer e a conduzir, novamente, a limpar o pó.

Abril 24, 2009

(foto por mim, 2007)

Depois do caril no bolo de mel (em vez da canela), depois de quase ter metido o telemóvel no frigorífico, depois de trocar palavras na mesma frase, depois de colocar sal na água que estaria a ferver para o chá, enfim, pouco mais me pode acontecer para atestar que estou, temporariamente é claro ;), na categoria de "despassarada" (adoro esta palavra). Ou talvez o cérebro esteja simplesmente a focar-se no que deve focar-se e a deixar estas tarefas supostamente "mundanas" para segundo plano.

Enquanto não volto ao normal, espero não fazer asneiras de maior.

Estou cansada mas o ritmo de trabalho está a ter as suas compensações: não tem havido aquela sensaçãozinha de culpa de não aproveitar o tempo. Está tudo tão preenchidinho que os tempos mortos são poucos. Valha-me isso.

Até à meta, esta recta final é em sprint. 10 minutos a dormir, café americano + expresso + solúvel + de cafeteira, e o cansaço é abandonado no caminho.

Abril 18, 2009

Ouve-se qualquer coisa, entre o estudo para Política Económica e leituras sobre tráfico humano.


Friday Im In Love - The Cure