(ou como o Maqui-maqui está vivo entre nós)
Sou uma miúda muito comichosa. Certas coisas atrapalham-me o pensamento não sei porquê, provocando-me uma sensação desconfortável no goto. Certas coisas *fazem-me espécie*. Os pseudo-seguidores de Maquiavel, mesmo que o desconheçam ou nunca o tenham lido, fazem-me, certamente, espécie.
Ideia base de Maquiavel? Estamos tod@s recordad@s: o Príncipe (@ governante) deve ser um/a mauzão/mázona para manter o poder. Tal justifica-se simplesmente porque a política deve ser amoral e estar desligada de valores e ética. Portanto, com Maquiavel temos que, na política, os meios justificam os fins.
Se eu acreditasse que toda a gente neste país lê, eu diria que tod@s @s polític@s deste país tinham Maquiavel na mesa-de-cabeceira. Mas, como sei que neste país, pouca gente lê, volto à realidade em poucos minutos.
Já penso isto há tanto tempo mas como o pensamento é assim um bocadinho óbvio, qual ovo de Colombo, nunca o senti merecedor de ser partilhado. Mas francamente, nesta madrugada de Agosto, em que apesar de muita coisa para fazer nada me apetece fazer, cabe a Maquiavel e à junta de Montes-acima darem-me a honra deste alívio à comichão que tal coisa me faz.
Há duas palavras combinadas que me irritam solenemente: estratégia política. Ou melhor, a sua conotação, o seu sentido, o significado implícito irritam-me solenemente.
Brain-storming de estratégia política?
- Lixar @s outr@s que comigo concorrem,
- propagandear-me à grande,
- levar as massas a alinhar comigo,
- e quem se queixa é porque não tem estômago para a política.
É assim que vejo funcionarem as eleições:
- Nacionais,
- Autárquicas,
- dos Órgãos de Gestão do Ensino Superior,
- das Associações de Estudantes do Ensino Superior,
- das Associações de Estudantes do Secundário.
Ou seja, desde as listas que feit@s doidinh@s delineavam a "estratégia política" no Secundário para uma simples Associação de Estudantes ao Primeiro-ministro de Portugal, tudo diz Amen a Maquiavel.
É algo curioso com quatro séculos e qualquer coisa deu para cimentar ideias que revolucionaram a época por, alegadamente, legitimarem o poder político ilimitado.
Ou seja, esta gente que bebe as lições de Maquiavel que hoje, mais não são, que conversa de mercado, esquecido está o autor e a razão do surgimento, admite que, no nosso sistema político, o "vale-tudo" é prática corrente porque é inerente ao exercício da política.
Agora vejamos,
- o homenzinho dizia isso há não sei quantos séculos atrás para se livrar do poder papal e a Itália poder ser país uno, legitimando assim a existência e acção de um príncipe, de um governante, cujo poder fosse o poder máximo no território por ele gerido,
- de geração para geração, estas ideias de "estratégia política" foram tão inculcadas que hoje qualquer um/a identifica os seus passos e trajectos: as artimanhas políticas, a deturpação de ditos e acções com o intuito de prejudicar @ "adversári@"...
Pergunto, qual é a legitimação, que hoje, que nos dias de hoje, se pode dar a esta "estratégia política"?
- Não está em causa a defesa do poder político do poder papal (a.k.a., concepção ascendente do poder),
- não estão em causa lutas territoriais,
- a defesa dos Estados, hoje, é cada vez menos militar e estanque em cada país,
- o poder é limitado e não absoluto,
- as limitações do mesmo são terrenas e não divinas o que implica que se mantenham e não desapareçam inesperadamente.
Não deveria haver qualquer tipo de respeito por esta tão old-fashioned "estratégia política". Não há legitimação para ela.
De facto, é bastante interessante observar o tipo de estratégia política vigente até à Guerra-fria pegar no mapa e mexer bandeirinhas de um lado para o outro, desenhar fronteiras a régua ou enviar espiões de um lado para o outro. Eu sempre gostei dessas coisas e de ver o James Bond com o meu pai à tarde na SIC. Mas essa estratégia, de pôr o mapa em cima da mesa, teve um contexto para existir. A conquista, a cedência, a defesa e a manutenção de um território justificava espionagem, artimanhas, diplomacia dúbia e propaganda enganosa. Mas essa Velha Ordem acabou, para as/os cidadã/os, em 89 e modificou-se, na mesma data, para o poder instituído.
Não sou grande fã da teoria de Fukuyama, aparentemente inovadora, sobre o fim da História, em que este seria o último estádio da evolução da Humanidade. Este, entenda-se, a ordem vigente: democracias liberais, sistemas parlamentaristas e os fins humanitários das mesmas. Mas, não o entendendo como último, considero que este estádio corresponde, de facto, ao estádio científico que Comte preconizava duzentos anos antes. Corresponde ao fim das guerras de mapa e territoriais, ao fim do Estado-Nação estanque nas suas fronteiras e na defesa dos seus interesses, ao fim dos Nacionalismos como assumida ideologia de Estado. O mundo Ocidental, motor da História Global (pelo simples facto de que foi o efectivo catalisador da globalização), hoje, prega colaboração. Prega um novo tipo de exercício da política, um novo tipo de estratégia política. Porque os tempos assim o exigem.
Pensemos,
- No Velho Continente, a União Europeia não deixa espaço de manobra a movimentações típicas da Velha Ordem. Mesmo onde os conflitos de carácter territorial (não obstante o peso étnico) são chama acesa, essa labareda dos Balcãs está a ser absolutamente abafada com uma manta feita de Organizações Internacionais. Não há, de facto, espaço de manobra para os Estados tratarem de si mesmos.
- do lado de lá do Atlântico, os E.U.A. não esqueceram a Rússia das suas prioridades em termos de política externa mas, consequente do 11 de Setembro e de uma outra Nova Ordem Mundial, a tal velhinha estratégia política, habitualmente bilateral, deixou de o ser. As frentes diplomáticas Norte-Americanas, mesmo que muit@s as considerem acerrimamente ideológicas na sua índole, são, hoje, muito mais esbatidas nesse aspecto e muito mais focadas no pragmatismo capitalista do lucro. Isto tem que ver com o hábito bilateral da estratégia política ao longo dos tempos. Numa espécie de manequísmo, a Humanidade tende a polarizar-se, interna ou externamente, em torno do número dois. É assim que temos o Capitalismo e o Comunismo, a Tolerância e o Islamismo, o Partido Republicano e o Partido Democrata... A adversidade, por norma, tem a sua essência no número dois. A partir do momento em que o 11 de Setembro, depois de 89, trouxe à praça pública novos actores no tabuleiro mundial, cai por terra essa espécie de maniqueísmo. Hoje, forçadamente e não por boa-vontade, benevolência ou alguma ética barata, a colaboração para a acção e a colaboração para a concretização são as chaves.
Prosseguindo,
- se mesmo a nível macro, se atenuou a lógica de acção polarizadora que durou até 89, por que razão continua o Mundo a agir sob o seu jugo?
Temos cá na nossa casinha um PS e um PSD. Qual é a estratégia política de cada um deles? Claro está, a estratégia política das pessoas que os compõem. Pessoas contemporâneas de James Bond, isto é, pessoas profundamente enraizadas na velha estratégia política.
Então temos o Senhor PM e a/o Senhor/a Líder da Oposição a actuarem segundo essa estratégia política. Recorde-se, nesse mundo em que elas/es agem, é preciso ter estômago e na política vale tudo. É um mundo de propaganda e artimanhas. É um mundo onde a palavra trunfo e golpe são continuamente usadas.
Descendo na escala territorial do poder, chegamos às Autarquias, onde temos, por norma, um/a Senhor/a de um partido e outro/a senhor/a de outro às turras para conseguir a presidência. Ou seja, no nosso estudo-caso da Junta de Freguesia de Montes-acima, são dadas instruções ao Senhor Zé para lixar o Senhor Manuel, usando os tais trunfos na sua propaganda.
Portanto, este tipo de estratégia deixa de ter sentido a nível Mundial mas para estes senhores e as poucas senhoras que se candidatam à AR e à Junta de Freguesia de Montes-acima, esta estratégia é que faz todo o sentido.
Vivemos, aparentemente, o último estádio de civilização previsto por grandes autores desde o início dos tempos e, no entanto, anda tudo aqui como se fosse vizinh@ e contemporâne@ de Maquiavel, mesmo sem o conhecerem ou mesmo sem nunca terem ouvido falar dele.
Moral da História? A "estratégia política" não acompanhou os passos da História. Está obsoleta, ultrapassada e no entanto continua a ser idolatrada como verdade última e inquestionável. Deve ser das poucas vezes na História em que a maioria da população está atrás dos processos civilizacionais quando deveria, sempre, ser motor dos mesmos.

1 fragmento(s) teu(s):
E quem fala assim não é gago.
LP
Enviar um comentário